sábado, 24 de dezembro de 2011

(Madison Avery e a Morte – Kim Harrison.) Formaturas Infernais.

...Eu nunca o havia visto, em nenhum outro dia desde que fui parar naquela cidade. Não teria me esquecido. Talvez teria até me esforçado mais.Encabulada,larguei a barra do vestido a fim de tapar o meu decote.Deus,eu estava me sentindo como uma inglesinha vagabunda com aquele corpete tão apertado.O cara estava vestindo uma fantasia preta bem cafona de pirata,com uma pedra presa em seu colar,em cima do peito.Uma mascara parecida com a do Zorro escondia parte de seu rosto.As fitas negras que amarravam a mascara se confundiam com o seu cabelo loiro escuro.Ela era alguns centímetros mais alto do que eu,e quando conferi seu corpo quis perguntar onde ele esteve todo esse tempo.
         -Perdão-ele disse, pegando a minha mão. Fiquei sem ar. Não porque ele estava me tocando, mas porque o sotaque dele não era dali. Um tipo de respiração lenta e suave aliada a uma precisão rígida trazia-lhe um ar de bom gosto e sofisticação. Dava para ouvir um titilar de cristais e uma risada branda em sua voz, os sons reconfortantes que repetidamente me embalavam no sono enquanto as ondas desabavam na praia.
-Quer dançar? –falei, nervosa. – Não que eu esteja acostumada, mas a batida é boa.
     O sorriso dele cresceu, e uma onda de alivio acelerou o meu pulso. ”Ai acho que ele gosta de mim.” Largando a minha mão ele fez que sim com a cabeça, deu um passo para trás, e começou a se mexer. Por um estante, esqueci de acompanhá-lo e fiquei olhando. Ele não era metido. Não ele era o oposto – os seus movimentos lentos impressionavam muito mais do que se ele tivesse aberto um clarão na pista rodando comigo.
     Ao perceber que eu estava olhando, ele sorriu, protegido pela mascara misteriosa e por um par de olhos castanhos. Ele segurou a minha mão, convidando-me para dançar. Respirei, meus dedos estavam entrelaçados aos dele, que eram quentes, e permiti que eu fosse guiada.
    A música era um mero acompanhamento aos nossos movimentos, e eu fiquei perdida de tanto a maneira certa de dançar. Como uma valsa, nós nos movimentamos ao som das batidas. Relaxei o corpo, achando que seria mais fácil se eu simplesmente não pensasse muito. Senti profundamente cada movimento dos meus quadris e dos seus ombros - uma emoção muito grande começou a crescer dentro de mim.
      O espaço entre nós estava cada vez menor. O olhar de um estava preso no do outro e eu fui ganhando confiança. Deixei que ele me guiasse de acordo com o ritmo da música, e meu coração batia no mesmo compasso.
   -A maioria de pessoas aqui me chama de Seth – ele disse. Ele quase arruinou o momento, se não fosse por uma de suas mãos tomando a minha cintura. Eu encostei-me a ele. ”Agora sim. Assim está bem melhor.”
      -Madison – eu disse, muito satisfeita por está ali, dançando bem mais lentamente que o resto das pessoas. No entanto, a música era rápida, fazendo com que meu sangue corresse depressa. Os dois extremos deixavam a coisa toda muito mais ousada. Os dedos de Seth apertaram o meu vestido – ou talvez ele estivesse apenas chegando mais perto de mim.
      As luzes coloridas brincavam com no rosto dele, e eu me sentia meio zonza. Isso sim era o que eu tinha imaginado para minha formatura. Afastei-me com o intuito de fitar seus olhos. Ele sorriu com os lábios unidos, e eu me senti pequena e protegida. Eu também sorri. Ergui o queixo e, em um movimento ousado, abracei Seth e o puxei mais para perto. Nossos corpos se uniam e depois se afastavam. Meu coração batia forte, estava nervosa.
       As mãos de Seth acariciavam minha cintura delicadamente, sem perder meu corpo nem exigir nada dele. Me deixei ir em movimentos mais ousados. Seth diminuiu o passo e me puxou para perto dele em um movimento suave e equilibrado. Ele ia me beijar. Tinha certeza. Estava escrito cada gesto dele. Meu pulso bateu forte, e eu me inclinei o rosto a fim de encaixar meus lábios nos dele. Senti que os meus joelhos travaram. Meus olhos se fecharam e eu desloquei meu peso de modo que a dança continuasse durante o beijo.
       Era tudo que eu queria. Uma onda de calor tomou partes do meu corpo que ele tocava, espalhando-se em camadas incandescentes, cada vez mais quentes a cada toque dele. Nunca havia sido beijada daquela forma. Minhas mãos estavam na cintura de Seth e o apertaram ainda mais quando umas de suas mãos seguraram cuidadosamente a minha bochecha, como se eu fosse de porcelana.
       Suas mãos me apertaram ainda mais e muita adrenalina correu no meu corpo. O beijo havia tomado outro rumo. Alarmada e sem fôlego, joguei meu corpo para trás. Mas estava muito viva e feliz. Os olhos melancólicos de Seth se fixaram em mim com um espanto que tentei evitar...
  Na verdade foi aí que descobri que estava apaixonada pela minha própria morte.

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